ENTREVISTA COM: AIMAR LABAKI

 

"Nos dias que correm, a interface entre as linguagens é absolutamente cotidiana e natural: não há como fugir dela"


Ingmar Bergman é um cineasta cultuado por artistas de várias gerações e certamente um dos mais influentes da história do cinema, notadamente pelo abordagens de temas existências e pela forma “estilizada” de filmar. O que mais te chama atenção na sua obra?


Aimar Labaki:"A coerência e o rigor. Ao longo de décadas, ele propôs sempre as mesmas questões – e sempre com o maior rigor artístico e técnico."


Como se estabeleceu sua relação com o projeto Bergman no Teatro – se havia – até se realizar o convite para dirigir Sonata de Outono?


Aimar Labaki:Cristina produziu e protagonizou uma montagem um texto meu, A Boa, há mais de dez anos. Nunca perdemos contato. Quando postou no Facebook que ia montar Sonata, brinquei que ela devia ter me convidado para dirigir. Na hora, me convidou para alguma outra montagem deste projeto. Acabei dirigindo este mesmo.


Como se deu sua aproximação com o texto? Em algum momento de sua trajetória você havia levantado a possibilidade de encená-lo? Ou outro texto de Bergman?


Aimar Labaki:Nos anos 70 e 80, durante minha adolescência e juventude, os filmes de Bergman foram essenciais para minha formação como homem e artista – Face a Face, Morangos Silvestres, O Sétimo Selo, Sonata de Outono, Cenas de um Casamento, Fanny e Alexander. Nunca havia pensado em encená-lo. Mas quando vi o post de Cristina, instintivamente tive vontade de dirigir Sonata. Não sei se dirigiria outro dos textos dele. Este me pareceu, na hora, perfeito para o teatro.


Durante o seminário em Salvador, você disse algo como “o que teremos no palco é a sua encenação para aquele textos”, acerca de uma provável expectativa de uma transposição teatral do filme de Bergman, confere?


Aimar Labaki: Teatro e Cinema são duas linguagens muito diferentes. Não dá para montar um filme no palco. Dá para montar uma peça a partir do filme - assim como se fazem peças a partir de livros, histórias, poemas etc. O espetáculo Sonata de Outono é a minha versão para teatro do filme de Bergman.


Você alterou algo no texto –cortes, acréscimos, adaptações? Com vistas a quê?


Aimar Labaki: Enxuguei muito o texto, mudei de ordem algumas cenas e trabalhei os diálogos no sentido de fazê-los teatrais. Não alterei nem o sentido, nem o ponto de vista de Bergman.


Há no espetáculos referências a outros dois trabalhos de Bergman para o cinema, Fanny e Alexander e Persona. Por quê?


Aimar Labaki:Por que a obra de Bergman é um todo. Do primeiro filme, Crise, ao último, Sarabanda, há temas, personagens, situações, citações reconhecíveis e intercambiáveis. É claro que os primeiros filmes dele não são autorais. São obras de encomenda, exercícios de estilo para um estúdio. Mesmo assim, já se veem ali os sinais do artista. Montar um espetáculo a partir de um texto dele leva naturalmente à citação de outros trabalhos.


Como selecionou o elenco?


Aimar Labaki :Cristina me convidou. E se hoje tivesse que chamar uma atriz para fazer o papel, seria ela mesma. Plínio Soares é um amigo e um ator a quem admiro há exatos 30 anos, quando fizemos uma peça juntos. Thaia Perez me proporcionou algumas das grandes emoções da minha vida de espectador em peças como Os Filhos de Kennedy que assistir nos anos 70. Ela ficou muitos anos afastada dos palcos e voltou a circular no meio há pouco tempo. Quando a reencontrei, resolvi na hora que trabalharia com ela. É uma grande atriz - e uma pessoa muito querida.


Sonata de Outono não foi escrito, inicialmente, para ser encenado. De que maneira isso determina ou interfere no seu trabalho como diretor e a triangulação desse diálogo com o público?


Aimar Labaki:Para que pudesse ser encenado tive que fazer um trabalho de "tradução" de um meio a outro.


Você realiza trabalhos para a televisão. Há alguma contaminação entre sua trajetória no teatro e na TV? Possui algum interesse específico na interface do teatro com outras linguagens artísticas?


Aimar Labaki:Quando se escreve autoralmente é inevitável que temas, personagens, pontos de vista se repitam. Assim foi com novelas e peças de teatro que eu escrevi como autor. Na TV, muitas vezes, o roteirista trabalha a serviço de outro autor e aí esta contaminação não é automática. Escreve-se para o outro e não para si mesmo. O que pode também ser uma experiência prazerosa e frutífera. Nos dias que correm, a interface entre as linguagens é absolutamente cotidiana e natural: não há como fugir dela. Mas por isso mesmo é preciso atenção redobrada para não confundir técnica com linguagem.


Sonata de Outono, o espetáculo, utiliza-se de recursos audiovisuais...


Aimar Labaki:Na mesma medida em que outros encenadores a usam – vide Christiane Jatahy e Enrique Dias, dois dos diretores a quem mais admiro. É claro que o fato de ser originalmente um filme escrito e dirigido por um homem de teatro – e Bergman, antes de tudo, era um homem de teatro – leva a que se incorpore o uso do audiovisual de forma mais natural.


Como você define sua encenação, em termos de recursos cênicos e dramáticos (no trabalho com os atores)?


Aimar Labaki : Em Sonata, como em todos os espetáculos que dirijo, a cena é construída a partir do texto e dos atores. Eles são cocriadores e, ao mesmo tempo, instrumentos. Estou tendo a sorte de trabalhar com três excelentes atores. Aliás, quatro. Adriana Londoño, atriz que trabalha comigo desde minha primeira montagem, em 1992, faz uma participação especialíssima, em vídeo



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