ENTREVISTA COM: CRISTINA LEIFER

 

"Falar do humano hoje, no teatro, que é uma arte viva, é de extrema importância"


"Mas, nesse projeto, eu escolhi falar de teatro. Bergman e suas angústias, seus questionamentos, suas reflexões, sua paixão pelos atores, enfim, sua história real e ficcional sendo presentificada por corpos vivos e reais"


"Ingrid Bergman e Liv Ullmann são apenas inspirações... Seria uma grande bobagem de o público pensar em comparações. Cada ator é um abismo de possibilidades!"


Ingmar Bergman é um cineasta cultuado, com uma obra cifrada para uns,“intocável” para outros. Como surgiu a ideia de levar para o teatro roteiros escritos por ele para o cinema?


Cristina Leifer:"Eu sempre me senti seduzida pelos filmes de Bergman. A atuação irretocável dos atores e os roteiros geniais me hipnotizavam. O primeiro filme de Bergman a que assisti foi O Sétimo Selo, fiquei pensando nesse jogo de vida e morte durante muito tempo e constatei que esse duelo também aparecia em outros filmes. E, como o teatro acontece ao vivo e em cores e no campo da atuação há também esse jogo de vida e morte, pensei que poderia adaptar seus roteiros para o teatro. Um desafiador jogo para o ator!"


Você tem formação em Teatro. Possui algum interesse específico na interface teatro-cinema ou entre o teatro e outras linguagens artísticas? Ou ausculta especificamente esta interface através da obra de Bergman?


Cristina Leifer:Teatro e cinema são duas linguagens distintas. Podemos falar de cinema e de teatro, não sei se posso falar de uma interface, não me sinto capaz de falar disso. Inclusive tenho curiosidade de pensar um pouco mais sobre essas linguagens. Recentemente li um termo estranho "cineatro", em um artigo que fazia uma crítica da peça-filme E Se Elas Fossem para Moscou?, da diretora Cristiane Jatahy, do Rio de Janeiro. Fiquei muito curiosa em saber como ela lida com as duas linguagens. Mas nesse projeto eu escolhi falar de teatro. O projeto é Bergman no Teatro, ou seja, Bergman e suas angústias, seus questionamentos, suas reflexões, sua paixão pelos atores, enfim, sua história real e ficcional sendo contada dentro de uma caixa cênica, presentificada por corpos vivos e reais. O cinema é um sonho, uma realidade virtual. O cinema tem seu encantamento, mas para mim o teatro é mais desafiador por ser feito no aqui e agora, sem a mediação de uma câmera e junto com a respiração do nosso fruidor, o público.


É comum atribuir ao trabalho de Bergman um caráter “psicanalítico”. Você compartilha desta visão?


Cristina Leifer:A vida de Bergman foi muito conturbada. Bergman viveu uma infância reprimida dentro de um mundo religioso, onde a culpa e o castigo foram fontes de muitas angústias e sofrimentos. Tudo isso está refletido em sua vasta filmografia. Tudo isso é um prato cheio para qualquer psicanalista! No entanto, acredito que outras disciplinas também analisam seus roteiros, a interpretação dos atores e discutem sobre os temas apresentados em seus filmes, como a filosofia, a história e a religião, por exemplo.


O Projeto vai buscar alguma ligação com a psicanálise? Você tem também formação em Psicologia...


Cristina Leifer: Sim. Tenho graduação em Psicologia e fiz uma especialização em Teoria Psicanalítica de Orientação Lacaniana. Como respondi acima, a análise psicanalítica, assim como a filosófica, a religiosa, a histórica, a teatral, a cinematográfica etc., todas elas podem ser de grande valia para um rico debate. Debates estes que ajudam a construir pensamentos críticos, ou seja, a pensar!


O que especificamente este projeto quer enfatizar ao encenar roteiros cinematográficos?.


Cristina Leifer: Os roteiros de Bergman são literários! Não são simples roteiros cinematográficos, são geniais. Seus temas são da ordem do humano e falar do humano hoje, no teatro, que é uma arte viva, é de extrema importância, porque a maioria das pessoas está cada vez mais fechada em mundos virtuais, fugindo da realidade, do mundo vivo, das pessoas, da sua própria humanidade.


Por que começar o projeto com Sonata de Outono? Foi uma escolha deliberada?


Cristina Leifer: Sonata de Outono fala da nossa primeira relação de amor, a materna. Este roteiro apresenta uma relação entre duas mulheres, mãe e filha, como diz o próprio Bergman, "uma terrível combinação de sentimentos, confusões e destruições." Eu escolhi esse tema porque nessa relação parental está a origem de muitas confusões e destruições humanas.


Além das habilidades de Bergman como cineasta, Sonata de Outono, o filme, é marcado pelas interpretações de Ingrid Bergman e Liv Ullmann. Aliás, o papel de Charlotte, a mãe, foi escrito especialmente para Ingrid. E, na peça, você interpreta a personagem Eva, a filha, vivida no cinema por Liv, que foi companheira-musa de Bergman. Que tipo de estimulo esse conjunto de fatores proporciona a você como atriz?


Cristina Leifer:Grandes inspirações, Ingrid e Liv! Apenas inspirações... Seria uma grande bobagem de o público pensar em comparações. Cada ator é um abismo de possibilidades!


Você pretende participar do elenco de todas as montagens?


Cristina Leifer:De todas, ainda não sei, mas das primeiras com certeza! (risos)


Como vai se dar a escolha dos diretores?


Cristina Leifer:Eu penso primeiro no ser humano! Na sensibilidade, na honestidade, no caráter, na cultura, no intelecto, na paixão pelo teatro e na experiência!


O que no trabalho do diretor Aimar Labaki lhe chama atenção? O que motivou o seu convite?


Cristina Leifer:Conheci Aimar Labaki em 2002 quando montei como atriz um texto seu. De lá pra cá, já são 12 anos!! Quando publiquei no facebook que iria montar Sonata de Outono, ele me enviou uma mensagem inbox demonstrando interesse. Imediatamente eu o convidei para fazer parte do projeto. O que motivou o meu convite está descrito acima: sensibilidade, honestidade, caráter, cultura, intelecto, paixão pelo teatro e experiência! Isso tudo chamou a minha atenção!!



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